A acreditação hospitalar é um processo voluntário de avaliação externa que certifica que uma instituição atende a padrões rigorosos de qualidade e segurança. Para o serviço de anestesiologia, os programas de acreditação — em especial ONA, JCI e Qmentum — representam tanto uma exigência quanto uma oportunidade de estruturação.
A anestesiologia figura de forma proeminente nos manuais de acreditação porque é uma especialidade de alto risco, com processos críticos que afetam diretamente a segurança do paciente. Entender o que cada programa exige — e o que isso significa na prática — é o ponto de partida para qualquer hospital que queira obter ou manter a acreditação com excelência nessa área.
ONA: o programa de referência no Brasil
O programa da Organização Nacional de Acreditação (ONA) é o mais disseminado no Brasil, com três níveis progressivos de certificação. Os requisitos de anestesiologia aumentam em complexidade a cada nível.
ONA Nível 1: requisitos básicos de conformidade
No primeiro nível, a ONA exige que o hospital demonstre conformidade com os requisitos regulatórios mínimos para a prestação de serviços de anestesiologia:
- Responsável técnico identificado e registrado no CRM regional
- Protocolo de anestesia documentado, incluindo avaliação pré-anestésica, técnicas utilizadas e critérios de alta da SRPA
- Monitorização mínima disponível em todas as salas onde se realizam procedimentos anestésicos (conforme Resolução CFM nº 2.174/2017)
- Registro sistemático em prontuário de todos os procedimentos anestésicos
Esses requisitos parecem básicos — e são. Mas hospitais em processo de primeira acreditação frequentemente descobrem lacunas relevantes: protocolos desatualizados, fichas anestésicas incompletas, monitorização deficiente em áreas fora do bloco.
ONA Nível 2: gestão de processos e indicadores
No segundo nível, a ONA exige que o serviço demonstre gestão ativa de seus processos, não apenas conformidade com regras:
- Indicadores de qualidade monitorados sistematicamente: taxa de cancelamento por motivo anestésico, incidência de NVPO, eventos adversos, conformidade com protocolos
- Análise crítica dos indicadores: reuniões periódicas documentadas com identificação de desvios e planos de ação
- Processo formal de avaliação pré-anestésica: com critérios padronizados, formulário único e rastreabilidade de 100% dos casos eletivos
- Protocolo de via aérea difícil documentado e com treinamento comprovado da equipe
A diferença entre o Nível 1 e o Nível 2 é a transição de "temos os documentos" para "usamos os documentos para melhorar".
ONA Nível 3: excelência e resultados
No terceiro nível (Nível de Excelência), a ONA avalia se o hospital consegue demonstrar resultados superiores e melhoria contínua sustentada:
- Comparação de indicadores com benchmarks nacionais e internacionais
- Participação em estudos multicêntricos ou registros nacionais de anestesiologia
- Programa formal de desenvolvimento da equipe de anestesiologia
- Integração com protocolos de recuperação acelerada (ERAS ou equivalente)
- Evidência de ciclos de melhoria com impacto mensurável nos resultados
Joint Commission International (JCI): o padrão global
A JCI é o programa de acreditação internacional de referência, adotado por hospitais que operam em padrão global ou que atendem pacientes internacionais. Seus requisitos de anestesiologia são organizados em torno de três domínios principais.
Avaliação e cuidado perioperatório
A JCI exige que o hospital tenha políticas e procedimentos documentados para toda a jornada perioperatória do paciente, incluindo:
- Avaliação pré-anestésica padronizada com registro em prontuário
- Consentimento informado específico para anestesia, separado do consentimento cirúrgico
- Monitorização intraoperatória com parâmetros definidos por protocolo
- Critérios objetivos de alta da SRPA (escores de Aldrete ou equivalente)
- Avaliação e manejo da dor pós-operatória
Qualificação e competência da equipe
A JCI avalia a qualificação de cada profissional individualmente, exigindo que o hospital documente:
- Credenciais e habilitações de cada anestesiologista (equivalente ao credenciamento)
- Escopo de prática autorizado por profissional (o que cada anestesiologista pode ou não fazer)
- Evidência de avaliação de competência periódica
Gestão de medicamentos anestésicos
A JCI tem requisitos específicos sobre o armazenamento, dispensação, rotulagem e descarte de medicamentos utilizados em anestesia. A rastreabilidade de medicamentos controlados (opioides, benzodiazepínicos) é verificada em detalhe durante as visitas de avaliação.
Qmentum: perspectiva canadense com foco em segurança
O programa Qmentum, da Accreditation Canada, é menos disseminado no Brasil que ONA e JCI, mas está presente em redes hospitalares de origem canadense ou que adotaram esse referencial.
Seus requisitos de anestesiologia têm forte ênfase em segurança do paciente e cultura organizacional:
- Checklist cirúrgico: a Qmentum exige não apenas a existência do checklist cirúrgico baseado na iniciativa OMS, mas evidência de sua aplicação consistente e de análise dos resultados
- Cultura de segurança: avaliação da percepção dos profissionais — incluindo anestesiologistas — sobre a cultura de segurança da instituição
- Gestão de eventos adversos: processo formal e não punitivo de notificação e análise de incidentes
Como preparar o serviço de anestesiologia para a acreditação
A preparação para a acreditação não deve ser feita apenas na véspera da visita dos avaliadores. As instituições que obtêm melhores resultados nos processos de acreditação são aquelas que incorporaram os requisitos à rotina do serviço.
Diagnóstico inicial: compare o estado atual do serviço com os requisitos do programa de acreditação escolhido. Identifique as lacunas — de documentação, de processo, de indicadores, de infraestrutura.
Plano de adequação: priorize as lacunas por impacto e esforço de correção. Lacunas documentais são resolvidas mais rapidamente; lacunas de processo exigem mudança cultural e treinamento.
Envolvimento do responsável técnico: a adequação do serviço de anestesiologia às exigências de acreditação precisa ser liderada pelo Diretor Técnico de Anestesiologia, com suporte da direção médica e da gestão de qualidade.
Treinamento da equipe: todos os anestesiologistas precisam conhecer os protocolos, saber utilizar as ferramentas de monitoramento e entender por que os processos existem — não apenas seguir checklists.
Manutenção pós-acreditação: o risco do período pós-acreditação é o relaxamento. O serviço precisa manter os processos ativos e os indicadores monitorados continuamente, não apenas quando a visita de reacreditação se aproxima.
A Pivovar Anestesiologia tem experiência em suporte a processos de acreditação hospitalar, com protocolos documentados, indicadores sistematicamente monitorados e equipe familiarizada com os requisitos ONA e JCI. Se sua instituição está em processo de acreditação ou preparação, entre em contato com nossa equipe técnica.
