A comunicação estruturada anestesiologia é um dos temas com maior impacto em segurança do paciente — e um dos menos sistematizados na prática hospitalar brasileira. Estudos publicados no British Journal of Anaesthesia identificam a falha de comunicação como fator contribuinte em aproximadamente 30% dos eventos adversos em anestesiologia. Em muitos casos, o problema não foi a falta de conhecimento técnico do profissional — foi a informação que não chegou, chegou incompleta ou chegou tarde demais.
Este artigo apresenta os principais métodos de comunicação estruturada aplicáveis ao contexto anestésico: SBAR, briefing pré-cirúrgico, handoff e comunicação de risco. Para cada um, apresentamos como implementar na prática.
Por que a comunicação não estruturada falha em anestesiologia
O ambiente do centro cirúrgico é, por natureza, desfavorável à comunicação eficaz: alta pressão, ruídos, múltiplas tarefas simultâneas, interrupções frequentes e hierarquia que pode inibir a comunicação ascendente (o técnico de enfermagem que não se sente à vontade para avisar o anestesiologista sobre um alarme).
Nesse contexto, deixar a comunicação a critério do estilo individual de cada profissional é arriscado. Uma pessoa comunica de forma narrativa e longa. Outra vai direto ao ponto mas omite contexto. Uma terceira presume que o outro já sabe o que ela sabe. Essas diferenças individuais são inofensivas na maioria das situações — e potencialmente fatais nas que importam.
A comunicação estruturada resolve isso ao definir previamente o que deve ser comunicado, como e em qual ordem.
SBAR: estrutura universal de comunicação clínica
O SBAR (Situation, Background, Assessment, Recommendation) foi desenvolvido originalmente pela Marinha dos EUA para comunicação em situações de crise e adaptado para a saúde pelo Instituto para Segurança do Paciente (IHI). É hoje a ferramenta de comunicação clínica mais difundida no mundo.
Estrutura:
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S (Situação): o que está acontecendo agora? Seja direto: "Paciente Bruno Oliveira, 58 anos, em pós-operatório imediato de cirurgia abdominal, com hipotensão progressiva nos últimos 10 minutos — PA atual 80/50 mmHg."
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B (Background): contexto relevante para entender a situação. "Paciente com histórico de HAS e DAC. Perdeu aproximadamente 800 mL durante a cirurgia, reposta com cristaloide. Anestesia geral com isoflurano. Recebeu morfina 4 mg no intraoperatório."
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A (Avaliação): o que você pensa que está acontecendo? "Acredito que pode ser hipovolemia residual ou reação ao opioide. Não descarto sangramento ativo."
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R (Recomendação): o que você acha que deve ser feito? "Solicito avaliação imediata. Considero volume adicional e verificação de sangramento. Preciso da sua orientação sobre conduta."
Em anestesiologia, o SBAR é especialmente útil em:
- Comunicação do anestesiologista ao cirurgião sobre intercorrência intraoperatória;
- Comunicação entre anestesiologistas na passagem de plantão;
- Comunicação do anestesiologista à enfermagem da SRPA no momento da transferência do paciente.
Briefing pré-cirúrgico: comunicação antes que o problema aconteça
O briefing pré-cirúrgico é uma reunião rápida (2 a 5 minutos) realizada antes do início de cada cirurgia, com a participação de cirurgião, anestesiologista e circulante. Ele é o componente mais importante do WHO Surgical Safety Checklist e está associado a redução de 36% na mortalidade cirúrgica e 47% na incidência de complicações, segundo o estudo original de Haynes et al. publicado no NEJM.
O briefing pré-cirúrgico padrão inclui:
- Confirmação de identidade do paciente (nome completo e data de nascimento);
- Procedimento a ser realizado e lado da cirurgia (quando aplicável);
- Alergias conhecidas;
- Antecipação de eventos críticos: cirurgião apresenta dificuldades técnicas esperadas; anestesiologista apresenta preocupações específicas do ponto de vista anestésico; enfermagem confirma equipamentos e materiais disponíveis;
- Profilaxia antibiótica: confirmação de que foi administrada nos últimos 60 minutos;
- Disponibilidade de hemoderivados quando necessário.
O erro mais comum na implementação do checklist cirúrgico no Brasil é a realização mecânica, sem engajamento real: o formulário é preenchido, mas a comunicação não acontece. Para que o briefing seja efetivo, é preciso que os profissionais falem entre si — não apenas assinem o formulário.
Handoff (passagem de plantão) em anestesiologia
A passagem de plantão — o momento em que um anestesiologista transfere a responsabilidade por um paciente para outro — é uma das situações de maior risco de ruptura de continuidade do cuidado. Informações críticas são omitidas, mal interpretadas ou simplesmente esquecidas.
Um protocolo de handoff estruturado em anestesiologia deve garantir a transmissão de:
- Identificação do paciente e do procedimento em andamento;
- Técnica anestésica em uso e fármacos administrados (com doses, horários e respostas observadas);
- Intercorrências ocorridas e condutas tomadas;
- Condição hemodinâmica atual e tendência (estável? em recuperação? em deterioração?);
- Pendências: exames aguardados, drogas a administrar, decisões a tomar;
- Preocupações específicas do anestesiologista que está saindo.
O handoff deve ser feito verbalmente (com o checklist em mãos) e o profissional que assume deve confirmar o entendimento. "Read-back" — repetir o que foi dito para confirmar — é uma prática simples e eficaz.
Comunicação de risco: como informar o cirurgião sobre preocupações críticas
Uma das situações de comunicação mais delicadas em anestesiologia é quando o anestesiologista precisa comunicar ao cirurgião uma preocupação que pode alterar ou interromper o procedimento. A hierarquia médica e o estresse do ambiente cirúrgico frequentemente inibem essa comunicação.
O modelo "Assertive Communication" recomendado pelo programa CRM (Crew Resource Management) — adaptado da aviação — propõe uma sequência de quatro etapas:
- Chamar pelo nome: "Dr. Marcelo,"
- Expressar a preocupação: "estou preocupado com a PA do paciente — ele está em 75/40 há três minutos."
- Propor a ação: "Preciso pausar por alguns minutos para estabilizar a hemodinâmica."
- Aguardar confirmação: "O senhor concorda?"
Se a comunicação não for respondida ou for desconsiderada, o anestesiologista tem o direito e a obrigação de escalar — levar a decisão a uma instância superior (diretor médico, chefia de cirurgia) quando a segurança do paciente está em risco.
Institucionalizar esse direito de escalada, de forma explícita em protocolo, é fundamental para que comunicações críticas aconteçam sem medo de repercussão profissional.
Como implementar comunicação estruturada no seu serviço
A implementação deve ser gradual e participativa:
- Escolha uma ferramenta por vez: comece pelo briefing pré-cirúrgico ou pelo SBAR. Não tente implementar tudo simultaneamente;
- Treine com simulação: a comunicação estruturada precisa ser praticada, não apenas lida. Use simulações de cenários típicos com a equipe;
- Dê feedback em tempo real: quando um profissional usar o SBAR de forma eficaz em uma situação real, reconheça. Quando a comunicação falhar, debriefe o caso sem punição;
- Meça: defina como vai monitorar a adoção da ferramenta (observação direta, auditoria de casos, taxa de conformidade no checklist cirúrgico).
Como a Pivovar Anestesiologia incorpora comunicação estruturada
A Pivovar Anestesiologia inclui treinamento em comunicação estruturada — SBAR, handoff e briefing pré-cirúrgico — no programa de onboarding de todos os profissionais das equipes que gerencia. O cumprimento do checklist cirúrgico é monitorado como indicador de qualidade.
Se sua instituição quer melhorar a comunicação no centro cirúrgico e reduzir o risco de falhas de informação, fale com a Pivovar. A comunicação estruturada é uma das intervenções de maior impacto em segurança com menor custo de implementação.
