O protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery — Recuperação Acelerada Após Cirurgia) é hoje um dos programas com maior evidência de impacto em resultados cirúrgicos. Para gestores hospitalares, sua relevância vai além da clínica: o ERAS reduz tempo de internação, diminui complicações e melhora a eficiência operacional do centro cirúrgico. E a anestesiologia desempenha papel central em praticamente todas as suas etapas. Compreender o protocolo ERAS anestesiologia e sua implementação é, portanto, uma prioridade para diretorias médicas que buscam excelência perioperatória.

O que é o protocolo ERAS e qual é sua origem

O ERAS foi desenvolvido no início dos anos 2000 por um grupo de cirurgiões escandinavos liderado pelo Professor Henrik Kehlet. A proposta inicial era desafiar as práticas tradicionais do pré e pós-operatório — como jejum prolongado, uso liberal de opioides e imobilização pós-cirúrgica — e substituí-las por uma abordagem baseada em evidências que minimizasse o estresse fisiológico da cirurgia e acelerasse a recuperação funcional.

Desde então, o ERAS foi ampliado e validado para dezenas de especialidades cirúrgicas: colorretal, ginecológica, urológica, ortopédica, bariátrica, cardíaca e hepatobiliar, entre outras. O programa é coordenado pela ERAS Society, que publica diretrizes atualizadas regularmente e disponibiliza ferramentas de implementação e auditoria.

No Brasil, sua adoção ainda é heterogênea. Hospitais de referência nos grandes centros urbanos já implementam versões robustas do protocolo, enquanto a maioria dos serviços ainda pratica o modelo tradicional, com oportunidade significativa de melhoria.

As etapas do ERAS e o papel da anestesiologia em cada uma

O protocolo ERAS é estruturado em três fases: pré-operatória, intraoperatória e pós-operatória. A anestesiologia tem participação ativa nas três.

Fase pré-operatória. A avaliação pré-anestésica é o primeiro ponto de contato do anestesiologista com o paciente ERAS. Nessa fase, cabe ao anestesiologista: estratificar o risco cirúrgico, identificar comorbidades que exijam otimização, prescrever carbo-loading (ingesta de carboidratos de rápida absorção até duas horas antes da cirurgia, substituindo o jejum prolongado de seis a oito horas para líquidos claros), e iniciar a educação do paciente sobre o que esperar no pós-operatório. A ansiedade pré-operatória é também um alvo do protocolo — a medicação pré-anestésica deve ser criteriosamente escolhida para não comprometer a recuperação precoce.

Fase intraoperatória. Esta é a fase onde a anestesiologia tem maior autonomia e responsabilidade dentro do ERAS. Os componentes anestésicos principais incluem:

Fase pós-operatória. O anestesiologista responsável pelo ERAS não abandona o paciente na sala de recuperação. O manejo da dor pós-operatória — com analgesia multimodal (anti-inflamatórios, paracetamol, bloqueios regionais, adjuvantes) — é o principal mecanismo que permite a mobilização precoce e a realimentação rápida, dois pilares do ERAS. A prescrição de opioide como analgésico de resgate, e não como base da analgesia, é uma mudança cultural que o anestesiologista lidera.

Resultados clínicos e operacionais documentados

A literatura sobre o ERAS é uma das mais consistentes em medicina perioperatória. Metanálises publicadas no British Journal of Surgery e no Annals of Surgery demonstram:

Para o hospital, esses números se traduzem em maior rotatividade de leitos, redução de custos com internação e menor exposição a eventos adversos que geram passivos jurídicos e regulatórios.

Como estruturar a implementação do ERAS no seu hospital

A implementação bem-sucedida do ERAS requer mais do que distribuir um checklist para a equipe. É necessário:

Constituir um time ERAS multidisciplinar com representantes de cirurgia, anestesiologia, enfermagem, nutrição e fisioterapia, sob coordenação definida.

Selecionar uma especialidade cirúrgica piloto — de preferência aquela com maior volume e maior disponibilidade da equipe para aderir ao protocolo — e implementar de forma rigorosa antes de expandir.

Definir indicadores e coletar dados desde o início. Sem dados de baseline e acompanhamento, é impossível demonstrar o impacto do programa e justificar sua expansão.

Investir em educação da equipe. A mudança de paradigma — especialmente a redução de opioides e o jejum encurtado — exige treinamento e comunicação consistente.

Auditar a adesão regularmente. O ERAS Society disponibiliza um sistema de auditoria (ERAS Interactive Audit System — EIAS) que permite monitorar a adesão a cada componente do protocolo e correlacionar com desfechos.

Conclusão

O protocolo ERAS é a expressão prática da medicina perioperatória baseada em evidências. Sua implementação exige liderança clínica, engajamento multidisciplinar e compromisso da gestão hospitalar com dados e melhoria contínua. A anestesiologia não é apenas um participante do ERAS — é seu principal agente.

A Pivovar Anestesiologia possui experiência na implementação de protocolos ERAS em hospitais de diferentes portes e especialidades. Entre em contato para conhecer como estruturar esse programa na sua instituição.