O protocolo avaliação pré-anestésica é um dos documentos mais importantes do serviço de anestesiologia — e um dos mais frequentemente negligenciados em termos de padronização. Em muitos hospitais brasileiros, a consulta pré-anestésica ainda depende exclusivamente do estilo de cada profissional: o que um anestesiologista investiga, outro ignora. Essa variabilidade não é aceitável em um sistema de saúde que se pretende seguro. Padronizar o processo de avaliação pré-anestésica é uma das intervenções com maior impacto na segurança perioperatória e na eficiência do centro cirúrgico.
Por que padronizar a avaliação pré-anestésica
A avaliação pré-anestésica cumpre três funções críticas:
- Estratificação de risco: identificar pacientes de alto risco que exigem preparo adicional, consultas com especialistas ou modificação da técnica anestésica;
- Prevenção de cancelamentos: antecipar contraindicações e condições não otimizadas que levariam ao cancelamento da cirurgia no dia;
- Planejamento anestésico: definir a técnica mais adequada, os recursos necessários e os cuidados especiais do perioperatório.
Estudos publicados no periódico Anesthesia & Analgesia mostram que a implementação de protocolos estruturados de avaliação pré-anestésica reduz em até 40% a taxa de cancelamento cirúrgico por causas evitáveis e diminui significativamente a incidência de complicações perioperatórias.
O que o protocolo de avaliação pré-anestésica deve conter
Seção 1 — Identificação e dados do procedimento
- Dados completos do paciente (nome, data de nascimento, peso, altura, IMC);
- Procedimento cirúrgico planejado e cirurgião responsável;
- Data prevista da cirurgia e caráter do procedimento (eletivo, urgência, emergência);
- Anestesiologista responsável pela avaliação.
Seção 2 — Anamnese estruturada
A anamnese deve seguir roteiro padronizado com verificação obrigatória dos seguintes itens:
- Histórico anestésico prévio: anestesias anteriores, intercorrências, reações adversas, história familiar de hipertermia maligna;
- Alergias: medicamentos, látex, contrastes iodados, outros alergenos relevantes;
- Medicamentos em uso: com atenção especial a anticoagulantes, antiplaquetários, hipoglicemiantes, inibidores da ECA, betabloqueadores e suplementos fitoterápicos;
- Comorbidades: cardiovasculares (ICC, DAC, arritmias), respiratórias (asma, DPOC, apneia do sono), renais, hepáticas, neurológicas, endocrinológicas (diabetes, hipotireoidismo, hipertireoidismo);
- Histórico de tabagismo e uso de álcool/drogas;
- Gestação: para mulheres em idade fértil, sempre verificar.
Seção 3 — Exame físico direcionado
- Sinais vitais (PA, FC, SpO2, temperatura);
- Avaliação de via aérea: abertura de boca, distância tireomental, extensão cervical, Mallampati, presença de protrusão mandibular, dentição (dentes soltos, próteses);
- Ausculta cardiopulmonar;
- Acesso venoso: avaliação do calibre e condição das veias periféricas;
- Quando indicado: avaliação neurológica, muscular ou de região de bloqueio regional.
Seção 4 — Estratificação de risco
O protocolo deve incluir escalas de risco padronizadas:
- ASA Physical Status Classification: classificação obrigatória, com critérios escritos no protocolo para cada nível;
- Escore de risco cardíaco: para cirurgias de médio e alto porte, use o Revised Cardiac Risk Index (RCRI);
- Escore de risco de NVPO: escala de Apfel (para definição da estratégia de profilaxia antiemética);
- Escore de via aérea difícil: combinação de preditores com pontuação e conduta definida no protocolo.
Seção 5 — Solicitação de exames e consultas
O protocolo deve definir, por faixas etárias e comorbidades, quais exames são obrigatórios e quais são opcionais. Exames solicitados sem critério representam custo sem benefício; exames não solicitados quando necessários representam risco. Recomenda-se seguir as diretrizes da SBA e do American Society of Anesthesiologists (ASA) sobre exames pré-operatórios, que são mais restritivas do que a prática comum no Brasil.
Seção 6 — Plano anestésico e orientações ao paciente
- Técnica anestésica proposta (anestesia geral, regional, combinada) com justificativa para técnicas não padronizadas;
- Necessidade de monitorização especial (linha arterial, cateter central, BIS);
- Orientações ao paciente: jejum (com horários específicos conforme as novas diretrizes de jejum da ASA 2023), uso de medicamentos no dia da cirurgia, cuidados pós-operatórios;
- Consentimento informado: documento próprio, assinado e com linguagem acessível.
Como padronizar o protocolo na sua instituição
Passo 1 — Construção coletiva
Envolva toda a equipe de anestesiologia na elaboração do protocolo. Protocolos impostos de cima para baixo têm baixa aderência. Realize pelo menos duas rodadas de revisão com a equipe antes da aprovação final.
Passo 2 — Formato digital integrado ao prontuário
O protocolo deve ser preenchido em formato digital, integrado ao prontuário eletrônico do paciente. Formulários em papel são perdidos, ilegíveis e impossíveis de auditar em escala.
Passo 3 — Treinamento e simulação
Após a aprovação, conduza pelo menos uma sessão de treinamento com toda a equipe. Para profissionais novos, inclua o protocolo no onboarding.
Passo 4 — Auditoria de aderência
Defina desde o início como a aderência ao protocolo será medida. Recomenda-se auditoria trimestral de uma amostra de 50 fichas de avaliação pré-anestésica, com feedback individual para cada profissional.
Integração com o fluxo cirúrgico
O protocolo de avaliação pré-anestésica deve estar integrado ao fluxo do centro cirúrgico. Isso significa:
- Critérios claros para liberar ou suspender uma cirurgia com base na avaliação;
- Fluxo de comunicação para o cirurgião sobre condições que exigem preparo adicional;
- Prazo mínimo para realização da avaliação pré-anestésica antes da cirurgia eletiva (recomendamos pelo menos 72 horas antes para procedimentos de médio e alto risco).
Como a Pivovar Anestesiologia apoia a padronização do protocolo
A Pivovar Anestesiologia dispõe de modelo de protocolo de avaliação pré-anestésica desenvolvido com base nas diretrizes mais recentes da SBA, ASA e SBHCI. Implementamos o protocolo nas instituições parceiras com todo o processo de treinamento, integração ao prontuário e auditoria de aderência.
Entre em contato com a Pivovar para conhecer nosso modelo e avaliar como adaptá-lo à realidade da sua instituição.
